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Cruzando Continentes
   Localização : Turismo
   

Cruzando Continentes


Por Mari Campos



Dar a volta ao mundo é um sonho que, desde os idos de Júlio Verne, fascina o ser humano. A idéia de conhecer diversos lugares, destinos, povos e civilizações numa mesma viagem faz da jornada um bem muito maior do que a soma de todas as suas escalas. Hoje em dia, com os RTW (round-the-world tickets), dar a volta ao mundo ficou um sonho também muito mais palpável e possível para grande parte dos viajantes mundo afora. Tem gente, como o engenheiro Roger Pereira, que se aventura nesta empreitada em míseros 35 dias a cada dois anos – mas garante que vale o investimento. “Pago por um RTW proporcionalmente pouco a mais do que pagaria por uma passagem para a Ásia, que é sempre meu destino principal. Mas consigo conjugar neste mesmo bilhete diversos países e destinos para ter experiências bem antagônicas numa mesma viagem”, garante o paulista, que visitou Inglaterra, Egito, Índia e Japão da última vez.

Seja para um período de um mês ou para o tão sonhado ano sabático, o fato é que uma viagem como essa envolve muito mais planejamento que uma viagem comum de férias. São muitas providências a serem tomadas ao mesmo tempo, como, por exemplo, a necessidade de vistos e vacinas diferentes para o mesmo período. Hoje, são muitos os viajantes, brasileiros ou não, que embarcam em odisséias como essa, com o propósito de transformar suas vidas durante as experiências que vivenciarem na jornada. E, mesmo com toda a facilidade das passagens aéreas de volta ao mundo, tem muita gente que resolve desbravar o mundo ou um mesmo continente de maneira muito mais prosaica: sobre rodas!

No maior estilo “Diários da Motocicleta”, o professor de física Diogo Canola atravessou a América do Sul no começo de 2008. A aventura começou no dia 18 de dezembro de 2007, com a travessia desde Campinas, no interior de São Paulo, até Curitiba. De lá, seguiram para o litoral de Santa Catarina, onde passaram o Natal; depois, continuaram em direção ao sul do continente, atravessando o Chuí, Foz do Iguaçu, Punta del Este, Montevidéu, Ciudad de Leste, Colônia do Sacramento, Buenos Aires, Mendoza e Córdoba – chegando até os pés do Aconcágua. Tudo isso com um detalhe: “Esqueci o roteiro em casa, acredita?”, ri Diogo. O roteiro original, preparado desde o mês de outubro, simplesmente ficou fora da bagagem; Diogo e o amigo que o acompanhou fizeram o trajeto da maneira como lembravam, sem nada pré-definido. E contaram com a ajuda de desconhecidos pelo caminho nos momentos de aperto. Ainda que com diversos percalços – como a dificuldade para encontrar lugares decentes e econômicos para dormir em algumas cidades, o pouco tempo (todos esses destinos em apenas 23 dias de viagem, sendo 15 em território estrangeiro) ou ficar sem gasolina no meio do nada – a viagem foi uma experiência insuperável. “Foi uma experiência inesquecível. Fiquei completamente apaixonado por viagens de moto e quero fazer outras; só que da próxima vez vou levar meu roteiro e preparar as coisas com mais calma”, garante o professor.

Os gaúchos Roy Rudnick, 33, e Michelle Weiss, 23, sempre tiveram o sonho de dar a volta ao mundo. Pensavam nisso como uma idéia longínqua até o dia que, após uma conversa com um colega empresário, a decisão foi tomada e o tempo de preparação total para a jornada foi reduzido para apenas um ano e seis meses. Desde então, planejaram minuciosamente o abandono do trabalho e da faculdade e iniciaram a busca por informações, contatos, definição de roteiro, recursos, divulgação do projeto, burocracias e a preparação do veículo que seria, por quase três anos, residência oficial da dupla. A jornada foi oficialmente batizada de Mundo por Terra, já que tem como objetivo principal rodar o planeta sobre as quatro rodas de uma Land Rover Defender 130 (adaptado como um motor-home), abragendo um total de 60 países nos 5 continentes. “Queremos agregar conhecimento com as experiências a serem vividas entre belas e exóticas paisagens e no convívio com as interessantes culturas deste planeta”.

A grande viagem do casal começou em 25 de fevereiro de 2007 e até hoje já foram rodados mais de 70.000 km, percorridos entre Brasil, Paraguai, Argentina, Chile, Bolívia, Peru, Equador, Colômbia, Venezuela, Nova Zelândia, Austrália, Indonésia, Singapura, Malásia, Mianmar, Tailândia, Laos, Vietnam, Camboja, India e Nepal. Dentre as aventuras, destaque para uma caminhada de 18 dias por entre as montanhas da Cordilheira do Himalaia, num total de 220 km. “O que mais marcou até agora foram os contrastes e diferenças que os continentes possuem quando comparamo-os uns com os outros, o que ficou especialmente evidente quando deixamos os países de primeiro mundo, como Nova Zelândia e Austrália, para vivenciar a simplicidade das pessoas na Ásia”, diz Michelle. Todas as aventuras percorridas até hoje pela dupla, os próximos destinos e o projeto completo e detalhado da dupla podem ser conferidos no site www.mundoporterra.com.br .
Mas há viajantes definitivamente, digamos... mais... ousados. O campineiro César Cury, 46, que foi casado por 28 anos e tem um filho, pensou muitas vezes numa viagem como essa durante sua vida como “comerciante e sonhador”, como ele mesmo define.  “A viagem que estou prestes a fazer é uma adaptação de um projeto de quase duas décadas que  ‘em sonhos’  já esteve à bordo de um veleiro e depois de um ônibus com a família. Hoje, por falta de veleiro, ônibus e família, realizarei sozinho numa Kombi luxo 1968”.  Tudo começou em janeiro de 2007, quando recém-separado e quase sem dinheiro, comprou uma Kombi velha com o propósito inicial de ter um veículo barato para rodar por aí sem carregar a imagem clássica do “tiozão desquitado ao volante de um carrinho esporte equipado com 72 prestações”. Pela bagatela de R$ 2.999,00, o veículo foi levado pessoalmente pelo vendedor de Monte Alegre do Sul a Campinas já no dia seguinte. Quando seu mecânico a definiu como “bem enxuta para a idade”, Cury jogou sobre os pára-choques um restinho de cerveja que bebia e a batizou bem-humoradamente de Hebe (por ser uma velha enxuta e ter sofás, já que os estofados do carro estavam ok).

Trafegar por aí numa Kombi antiga não é tarefa para qualquer um: com carga plena, ela pode chegar às espantosas duas toneladas, num motor simplório de 1500 CC – sua velocidade de cruzeiro é 90km/hora, com cerca de oito quilômetros por litro. “A maneira mais correta de dirigi-la é comportar-se como se ela fosse um caminhão: manter-se sempre à direita e numa distância mais que razoável do veículo que está a sua frente, por mais lento que ele seja”, define Cury.   “Hebe”, que já tem ignição eletrônica, será em breve modernizada com um alternador de 75 Ah que fornecerá energia para toda a parafernália elétrica que acompanhará o comerciante em sua jornada sul-americana.  Também estão sendo instalados na kombi um reservatório de água com 50 litros, cama, armários, isolamento térmico, conversor de voltagem, navegador GPS, ventiladores, cortinas, faróis de neblina, câmeras de vídeo, geladeira e outros.

A data oficial de partida será 22 de setembro deste ano - equinócio de primavera, como Cury faz questão de frisar “porque as coisas importantes da vida requerem rituais” – e durará em princípio exatos 365 dias. O giro pelo continente sul-americano será dado a partir da cidade paulista de Bertioga, em sentido horário, de modo que sejam alcançadas as latitudes mais frias enquanto a temperatura esquenta. A cidade de Bertioga, que será o marco zero da viagem, foi escolhida propositadamente por ser palco das melhores lembranças de férias infantis de Cury. Talvez por isso todo o trajeto priorize as vias mais próximas do oceano. Colonia del Sacramento, Buenos Aires, Ushuaia,  Punta Arenas , Puerto Montt, Atacama, Nasca, Cuzco e Machu-Picchu compõem apenas o começo da viagem. Ainda estão no roteiro as Ilhas Galápagos, Colômbia, Venezuela e o retorno pela região norte e nordeste do Brasil, num total de 44.360 quilômetros, dois quais 38.500 devem ser rodados com a Hebe (há trechos em ferries, por exemplo). “Considero que uma viagem como essa é uma oportunidade única de conhecer pessoas, trocar experiências e absorver culturas. Será uma espécie de mochilão com veículo próprio e eventualmente devo até arriscar algumas noites independentes em praias que eu pressinta poesia e segurança”, filosofa.

A viagem deverá ser custeada com recursos provenientes da venda de um apartamento e de uma pizzaria em Campinas.  Além disso, Cury desenvolveu parcerias importantíssimas com operadora de telefonia celular, seguro saúde e automotivo, companhia de petróleo, administradora de cartão de crédito e, é claro, a montadora do veículo. Toda a viagem poderá ser acompanhada pela internet através dos sites www.kombinacoes.com e www.kombinaciones.com , com blog, chat, audiocast, videocast e outras tecnologias, sempre que possível, em tempo real. “Não tenho a menor idéia do que vou fazer quando voltar, mas isso não me aflige; afinal terei tantas possibilidades acumuladas que o difícil será escolher. Só sei que não pretendo voltar a ser comerciante e me amarrar ao negócio como fiz nas últimas duas décadas, mesmo porque, intuo que minha vontade de viajar vai se tornar incontrolável”, conclui.



Mari Campos é colunista colaboradora com o site AgitoCampinas e colunista do site

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