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Psicólogo Analisa a Orientação Vocacional
   Localização : Entrevistas
   

Psicólogo Analisa a Orientação Vocacional


Participar de uma orientação vocacional pode ser muito importante para o jovem que, no momento de escolher qual carreira seguir, vê-se cheio de dúvidas. A partir do 2º ano do Ensino Médio, o estudante está apto a optar por esse caminho, explica Reginaldo do Carmo Aguiar, psicólogo clínico comportamental no Instituto de Terapia de Contingências de Reforçamento de Campinas e estudioso em Neurociências, em entrevista ao Virando Bixo. Formado na Universidade Federal de Uberlândia, Aguiar coordenou grupo de estudos na área de Terapia Comportamental e Psicofarmacologia naquela instituição. Psicoterapeuta de crianças e adultos, mantém o blog www.psicopoesia.blogspot.com/. A seguir, a entrevista com o psicólogo.


VB - Qual é o momento certo para se fazer um teste vocacional?

Reginaldo do Carmo Aguiar - O mais rápido possível. De preferência, a partir do segundo ano do ensino médio, a partir dos 16 anos. Quanto mais cedo encontrar o curso mais adequado, menor será a ansiedade e mais motivado o sujeito ficará e isto aumentará o rendimento no vestibular. No entanto, acredito que o melhor seria uma orientação vocacional e que, dentro desta orientação, o profissional tenha como ferramenta o uso de testes vocacionais como elemento auxiliar, mas que não se restrinja apenas a isto. Os testes vocacionais são pouco usados hoje em dia. Eles podem ajudar a conhecer suas habilidades e gostos. No entanto, você não é obrigado a definir uma profissão só porque o teste indicou. Os questionários são padronizados, e as pessoas, não. Você pode optar por uma orientação vocacional que acompanhe e avalie as suas expectativas. A orientação vocacional individual ou em grupo deve basear-se em três itens. Um deles é autoconhecimento, o conhecimento dos próprios valores, interesses, perfil e habilidades. E isto pode envolver os testes vocacionais, mas não essencialmente. Exercícios e atividades de auto-conhecimento sobre o que gosta e o que não gosta, potencial e valores são muito importantes. Outro item é o conhecimento da realidade profissional, do esquema de organização das ocupações e do mundo de trabalho. Algumas atividades, como entrevista e palestras com profissionais e com estudantes universitários, visita a universidades, literatura pertinente aos diversos cursos existentes e discussões em grupo ajudam no conhecimento profissional. O terceiro item é a tomada de decisão do curso. Trata-se de um programa composto por jogos, vídeos, questionários, conversas, que leva a pessoa a pensar sobre si mesma, o significado da escolha profissional, entre outros temas. Isto para orientar, e não dar um diagnóstico.

VB - Qual a importância de se fazer um teste vocacional?

Aguiar - Antigamente, muitos dos primeiros processos seletivos profissionais envolviam, apenas, a aplicação e o uso consistente dos resultados dos testes vocacionais para "encaixar", apropriadamente, os indivíduos às ocupações. Vale saber que o primeiro teste vocacional foi criado por um militar em meados de 1914. Utilizado como base para analisar os talentos dos soldados do exército britânico, um questionário elaborado com perguntas sobre habilidades registrava o perfil dos soldados e, assim, determinava a sua função dentro da corporação militar. De lá para cá, diversas metodologias foram desenvolvidas para orientar jovens e até pessoas que desejam mudar de profissão. Entretanto, atualmente, com a evolução das diversas áreas de trabalho, a posição de encontrar um diagnóstico e fornecer conselhos passou a não ser mais suficiente para atender às necessidades de adaptação dos indivíduos, em um mundo de trabalho cada vez mais complexo. Dessa forma, outros procedimentos foram sendo implementados e, aos poucos, os testes foram sendo substituídos pelo auxílio ao autoconhecimento, conhecimento da realidade profissional e a tomada de decisão consciente aos orientandos de uma orientação vocacional.

VB - O que um teste desse tipo avalia?

Aguiar - Teoricamente, os testes utilizados visam medir as aptidões, interesses, personalidade e inteligência dos sujeitos e determinar a escolha mais convincente em termos de produtividade profissional.

VB - Quais os métodos mais utilizados?

Aguiar - Um dos testes é o de inteligência global, que avalia as habilidades do ser humano, o nível de percepção, a memória e o raciocínio. Outras opções são os testes de avaliação de estrutura e de dinâmica da personalidade. O de estrutura visa analisar o lado pessoal, equilíbrio e desequilíbrio emocionais, mentais e psiquiátricos. Já o de dinâmica, é um teste temático, que verifica as angústias, rivalidades, conflitos de uma pessoa. Depois que os testes são realizados, seguem-se para as entrevistas com o jovem e os pais dele. A conversa é baseada no histórico familiar, cultural, situações do cotidiano, relacionamento social, entre outros assuntos. A partir daí é possível chegar ao perfil da personalidade que revela as características, habilidades, dificuldades do indivíduo em questão.

VB- O teste vocacional realmente funciona?

Aguiar - Uma boa orientação vocacional não deve ficar presa a resultados de testes vocacionais. Os testes apenas dão uma referência em um contexto específico e não podem ser usados para rotular os sujeitos e nem como método único de orientação vocacional. As pessoas respondem diferentemente em lugares e em contextos distintos. Neste sentido, os resultados dos testes vocacionais podem mascarar as pessoas, generalizando seus comportamentos. Os testes vocacionais vêm de pesquisas científicas e estão em um crescente desenvolvimento e, nesse sentido, podem quantificar, dar uma tendência, mas não podem ser usados como ferramenta única para uma boa escolha profissional.

VB - Qual deve ser o papel dos pais no momento de o filho escolher qual profissão quer seguir?

Aguiar - Os pais querem na maioria das vezes o melhor para o seus filhos, mas por um desejo de vê-los bem muitas vezes não são empáticos com os filhos. Eles querem que seus filhos façam o que eles acham melhor em detrimento dos desejos e habilidades dos filhos. O papel dos pais deve ser de orientadores, dando informações, ouvindo bastante os anseios dos filhos e respeitando sempre o tempo, as habilidades e os gostos dos filhos. Falar assim parece ser fácil, mas não é. Pais bem-sucedidos, por exemplo, tendem a querer influenciar seus filhos a fazerem o que eles fazem. Ou pais frustrados profissionalmente, a influenciar seus filhos a fazerem aquilo que eles na vida não tiveram oportunidade de fazer. Outros pais focam mais o lado financeiro, deixando de lado o prazer da profissão. Os pais precisam acompanhar e ensinar seus filhos a ter autonomia. A escolha profissional é um momento bastante oportuno para isso, lembrando que quem vai estudar e trabalhar com aquilo terá que ser responsável pelo custos e benefícios da escolha. E que a vida muitas vezes consiste de escolhas. E que os pais devem também ensiná-los a escolherem e serem responsáveis por estas escolhas.

VB - Muitos jovens ficam bastante apreensivos por não conseguirem se decidir por qual curso escolher. Que orientação você pode dar a eles?

Aguiar - Não há uma receita de bolo pronta. A escolha de um curso vai direcionar toda a vida da pessoa. Provavelmente, ela fará isso oito horas diárias de segundas a sextas ou mais. E nesse sentido uma boa escolha é primordial, porque terá grandes conseqüências no futuro. Por isso, algumas questões podem ser pensadas, como quem sou eu, quem fui, quem pretendo ser, qual meu projeto de vida, como me vejo, no futuro, desempenhando meu trabalho, expectativas da família versus expectativas pessoais, quais são meus principais gostos, interesses e valores, objetivos da profissão, atividades específicas permanentes e ocasionais, curso de formação, escolas ou universidade, currículos, duração, titulação, exigências, áreas de especialização, mercado de trabalho, quem emprega, oferta versus demanda de emprego e faixas salariais.

Razões favoráveis ao uso de testes

1. Agiliza o processo. O orientando pode se valer de menos tempo e de informações mais objetivas e obter um resultado também mais objetivo.

2. Testes não determinam a profissão, delimitam uma área de atuação mais favorável ao indivíduo, dentro da qual ele pode selecionar uma profissão.

3. Testes criam um clima de neutralidade em relação à análise realizada. O sujeito tem parâmetros mais concretos e menos emocionais para decidir.

4. Atende às expectativas. Orientandos esperam responder testes vocacionais e obter respostas norteadoras por parte do orientador

5. Aplicação e devolução dos resultados dos testes facilitam ao orientador atender um número maior de orientandos que buscam pelo aconselhamento vocacional.

Razões contrárias ao uso de testes

1. O que agiliza o processo não são os instrumentos, mas a motivação e o engajamento do orientando em seu processo de autodescoberta.

2. Áreas de atuação são muito relativas. As profissões podem se combinar de várias formas, dependendo dos critérios classificatórios adotados.

3. Neutralidade é indesejável. O orientando precisa engajar-se no processo de escolha e analisar todos os aspectos possíveis (inclusive os subjetivos) para poder tomar sua decisão.

4. Orientandos esperam ser orientados. Eles, realmente, preferem um caminho mais fácil, mas respondem bem ao processo que produz autodescoberta e conduz às próprias respostas.

5. O orientador deve preocupar-se com a adequação do resultado da orientação ao indivíduo orientado e não com um grande número de sujeitos atendidos, que podem continuar desorientados.


Virando Bixo - Marcos Paulino

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